Cada esforço asmático feito para respirar enche os pulmões com mais água. E você sabe que as pessoas acumuladas à sua volta ao longo da vida não prestam. Você tampouco. Você e essa merdinha de educação judaico-cristã. Sua autoestima de minhoca. Seu pensamento subjetivo.
A doença é só a muleta.
Abre os braço! Sacrifício. Sacrifício porra nenhuma. "Boiar" é a palavra adequada. Os deuses pedem licença para entrar, educados.
A crença é só a muleta.
Pois quem nasceu gauche espera por soluções externas até a última fagulha de paixão ter-lhe abandonado, "En attendant Godot". Nessa joça, não se encontra gente merecedora da fatia gorda do bolo, nem poesia, nem choro, nem sonho. Não há.
Mas houve tempo de pregos serem seus bens mais valiosos, ou os únicos. Bem como o trapo domingueiro. Pregos e trapo, ferros e corpo. Você internalizou Hume, aquele justo trecho obliterado nas versões definitivas: optou pelo avesso, ou a natureza quis assim, meio carta de tarô.
Os coringas, as chaves e as cruzes.
O amor é só a muleta.
E a família, o emprego, os amigos. A matrix. Tudo o que pensa ter construído é engodo. A massa pra tapar o buraco pode ser mais firme, a obra pode ser mais bem-feita, o tapete mais espesso. A sujeira continua. Sinto-me podre, inteira. Fica difícil discernir. Se o medo impede de crescer ou de padecer.
A doença é só a muleta.
Lorena Alves.